Li há muitos anos, nem sei quantos, Perto do Coração Selvagem. Na época pensei que essa obra de Clarice havia modificado minha vida. Depois fui percebendo que ela apenas me revelou o momento que eu já vivia.
A geografia interior de Joana era também o caminho que eu percorria há tempos. A inquietação de estar sempre em busca de uma revelação qualquer, o hábito de analisar, e analisar e analizar, instante por instante. A vontade de romper com o conhecido, linear, fácil, e aceitar, mais que isso, ansiar pelo desconhecido e redescobrir, recolorir o desbotado e antigo. A necessidade quase intolerável de derrubar paredes, transformar padrões.
Esse processo é doloroso, inevitável, um caminho sem volta. Impossível "desaprender". Cansativo procurar respostas o tempo todo sem encontrá-las, e mesmo assim continuar buscando. De vez em quando tenho a vontade que Clarice também tinha de não entender, só o suficiente para descansar na ignorância.
E vem aquela pergunta que pessoas diferentes me fizeram em momentos e situações diversas - você nasceu assim ou foi ficando? - Penso que nasci predisposta, preparada para ir ficando ou seja, despida de pré-conceitos, a partir da idéia de que o ir ficando é o ir adiante, tentar, experimentar, inovar.
É a diferença entre o ser e o estar.
Me incomoda a imobilidade do ser. Eu só sou o que é base em mim. Em tudo o mais, estou.
